Poemas de Judas Isgorogota

1- A Mulher que não era bonita

Talvez, porque viesse angustiado, aflito,
Amei uma mulher que não era bonita…

Mas eu sei que não foi. Foi amor e sincero;
Tanto a amei, tanto a quis, que inda a amo e inda a quero…

Capricho, coração, uma coisa qualquer,
Porque se quer e estima e se ama uma mulher?…

Vocês hão de dizer “Todo rapaz é assim”.
Fecha os olhos e diz sinceramente: “Sim”.

O amor prende, o amor cega, o amor faz o que quer.
Fez-me, portanto, amar a primeira mulher.

Infelizmente, nem ela própria acredita
Que se ame uma mulher que não seja bonita.

2- Saudade

Mudos, olhando o embalo das maretas
os dois homens pararam; junto ao cais,
balouçantes, enormes silhuetas

De velhos barcos setentrionais
faziam retinir, como grilhetas,
os elos das correntes colossais…

Foi olhando essas naus, à Ave Maria,
na hora em que tudo em solidão se vê,

Que aqueles homens rústicos, um dia,
choraram muito sem saber porquê…

3- Você

Você…Você é tudo o que eu queria…
Tudo o que anseio que a ilusão me dê…
O meu sonho de amor de todo dia
Que nos meus olhos úmidos se lê…
Minha felicidade fugidia,
O meu sonho é você…..
Você…Você é a própria poesia
De tudo quanto em volta a mim se vê.
Se Deus quisesse dar-me certo dia
Tudo aquilo que eu quero que me dê,
Eu, sem pensar ao menos, pediria
Que me desse você!
Sonhos… glória imortal… seria um louco
Pedir tanta ilusão… Não sei por que,
Mesmo a ventura, que possuo tão pouco,
E tudo o mais que a vida ainda me dê,
Fortuna…amor…tudo eu daria, tudo,
Por você!
É que você tem todos os venenos…
É que seus lábios têm um não sei quê…
Os olhos de você são dois morenos
Que andam fazendo à noite cangerê…
Por tudo isso, eu pediria, ao menos,
Um pedacinho de você!

4- Felicidade é coisa que não tem

Era órfã e infeliz. Tinha o pesar profundo
De ser só, de não ter, como as outras meninas,
O carinho, a atenção, o desvelo dos pais.
Sofria por saber que, sozinha no mundo,
Ela, que havia tido a mais negra das sinas,
Deste mundo de dor nada esperava mais…
Mas, ouvindo, por fim, a fervorosa prece
Que altas horas da noite entre prantos brotava
Daquele ingênuo coração,
O Senhor a atendeu. E eis que um dia aparece
Um casal que de há muito desejava
Uma menina assim, para sua afeição.
E ela foi a sorrir, ela que não sorria…
A mansão do casal era toda cercada
De um mimoso jardim.
Seus vestidos agora eram lindos. Dir-se-ia
Que a andrajosa infeliz se transmudara em fada
E que a sua desdita, enfim, tivera um fim…
Não tivera, porém. Há três anos
Que ela era na escola a estudante pior.
Entanto, ela fazia esforços sobre-humanos
Para ao menos dizer uma frase de cor…
A memória, porém, só lhe causava danos
E era aquilo, afinal, sua mágoa maior…
Uma noite, o casal lhe disse: "Temos pena
De lembrar que você já não é tão pequena,
Que precisa estudar…
Pois, se perder este ano, é coisa resolvida,
Você vai passar a sua vida
Na copa, a trabalhar."
Aquela repreensão como um punhal lhe doía.
Tendo a alma a afogar-se em pranto, noite e dia
Aos livros a sem-sorte inda mais se aplicou.
Não, não queria ser uma simples copeira,
Ela que, pobrezinha, a sua infância inteira
Entre angústias passou…
Dezembro. A criançada. Antegozando as férias,
Mui longe de pensar nessas coisas tão sérias
Que a vida nos impõe quando a idade já vem,
Corre aos exames, rindo a criançada…
E no meio daquela revoada
Com um riso triste e bom, a órfão sorri também…
A escola é nesse dia um ninho delicioso,
Forrado de jasmins, de palmas e florões.
E a voz do mestre é a voz de um Todo-poderoso
Que as almas infantis enche de comoções…
Chega a vez da orfãzinha. É agora a vez terceira
Que se senta naquela humílima cadeira
Tal como se sentasse em um banco de réu…
Fala o mestre o seu nome, ao que ela diz: "Presente!"
Mas, o corpo era só que estava ali…realmente,
A sua alma vagava, entre os anjos, no céu…
O mestre a conhecia: era uma retardada
Mental, um caso à parte, e mister se fazia
Que com amor procedesse à mais leve argüição.
Dentre todas talvez fosse a mais aplicada…
Mas a idéia faltava…o cérebro dormia…
E a memória vivia em profunda inação.
-"Minha filha, você sabe perfeitamente
O que é "substantivo": a palavra que indica
Um animal, um ente,
Uma coisa ou pessoa, ou mesmo uma ilusão…
Por exemplo, você, o seu nome, "Lilica";
"Palácio", "Deus", "Amor", "Jornal", "Antônio"…
"Demônio" é um ser também, muito embora "Demônio"
Somente exista na imaginação…"
-"Muito bem, - prosseguiu o mestre. Estou contente.
Agora, diga o que é "substantivo abstrato"…
Diga…Lembre-se bem…coisa mais fácil não há…
Substantivo abstrato…uma coisa em que a gente
Ouve sempre falar mas não viu, de fato,
Nunca viu nem verá…"
-"Vamos… Só um exemplo, e eu fico satisfeito…
Substantivo abstrato…um entre sobre-humano,
Um ser a cujo canto alma alguma resiste,
Mas que não passa de ilusão…
Um sentimento bom que vive em nosso peito…
Uma coisa que o mundo inteiro diz que existe
E entretanto jamais a tivemos à mão…"
Nesse instante, uma luz brilhou nos olhos pequeninos
Da orfãzinha infeliz; e eis que, rasgando o denso
Nevoeiro, a idéia acorda em lampejos divinos,
A memória reluz como uma estranha vela;
Inicia a razão sua marcha triunfal,
E o cérebro, por fim, despertando daquela
Sonolência fatal,
Começa a funcionar com um dínamo imenso!
-"Mestre…mestre…eu já sei!" – grita a coitada como
Temendo que a razão se apagasse outra vez.
E aos brados, a chorar, num doloroso assomo,
Grita como uma douda
Que quisesse dizer a sua angústia toda
Naquele instante só de estranha lucidez!
- "Mestre, eu sei o que é! Se há uma coisa, em verdade,
Que o mundo inteiro diz que existe e que ninguém
Conseguiu ver jamais, nem a sentiu também,
Essa coisa só pode ser "Felicidade"!
Felicidade é coisa que não tem"

5- Recomendações

E se acaso você for à minha choupana
E minha mãe disser: "Como vai o meu filho?
Será que ele vai bem ou será que me engana?"
Você não vai falar que ando assim, maltrapilho;
Mas, lhe diga a sorrir: "Fique a senhora em paz!
Ele vence brincando o maior empecilho!
Está outro, ninguém o reconhece mais!"
Se minha irmã disser: "Como vai o meu mano?
Ele é muito falado? Ele é muito querido?
E será que ainda vem para casa este ano?"
Você não vá tocar no que tenho sofrido.
Mas, lhe diga a sorrir: "O seu mano é um rapaz
Que tem prêmios de amor e glória recebido!
Está outro! Ninguém o reconhece mais!"
Entretanto, se você chegar até a casa
De onde um dia saí, cambaleante e mudo,
- Asa que cai do azul com uma ferida na asa -,
E uma voz lhe disser, branda como um veludo:
- "Como vai o meu noivo?" (ouça bem, meu rapaz…)
Diga-lhe apenas isto, ela compreende tudo:
- "Está outro…ninguém o reconhece mais…"

6- Recompensa

Certa vez deixei a minha casa…
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida…
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista…
Era manhã quando sai de casa…
E o sol, vermelho de zarcão, dizia:
- "Para onde vai esse menino doudo
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu…
E, passo a passo, envelheci também…
De volta,
Meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando a procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa…

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